O luto: suas nuances, desafios e como superá-lo!

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Por Julyanna Santos 21.06.2021

O luto é um processo psicológico, decorrente de um estado pessoal de intensa angústia, que pode ser desencadeado por experiências de perda, como, por exemplo: morte de um ente querido, divórcio, aposentadoria, demissão, a perspectiva da própria morte.

Embora seja um estado passageiro – na grande maioria dos casos -, e que provoca expressões psíquicas de dor, a experiência do enlutamento pode resultar em força interior e maturidade. É importante ter a compreensão que o luto é uma resposta normal a uma experiência estressante, que embora pouco frequente na vida dos seres humanos, ela é inevitável.

Por isso, muitos especialistas defendem que o processo de luto, como reação à perda da pessoa amada, deve ser vivenciado plenamente e que aceitar a realidade da perda, experienciar e processar a dor, a adaptação ao ambiente, no qual a pessoa perdida já não está presente e o reinvestir noutras relações, são parte importante da construção psíquica do ser humano. Cada pessoa vivencia o luto de forma única e o elabora à sua maneira. Respeitar esse momento é fundamental.

No momento atual, em que o mundo atravessa uma pandemia, e que o número de mortes é cada dia maior e tem alcançado diversas estruturas familiares, é importante entender o luto e suas nuances, conhecer seus estágios e buscar formas de superar, de maneira saudável, essa vivência dolorosa.

Psicólogo Márcio Gondim: “A escuta profissional qualificada melhora condição e expressão da pessoa em sofrimento.”

Pensando nisso, o Portal Fortaleza Cidade Amiga do Idoso, conversou com o Psicólogo, Mestre em Psicologia pela UFC (Universidade Federal do Ceará), Docente Universitário e Coordenador do Curso de Psicologia Uninta Itapipoca, Márcio Gondim. Ele é psicoterapeuta à luz da ACP e Fenomenologia, com experiência em Psicologia Organizacional.

Para o psicólogo, nós temos vivido diversos lutos. “Após a disseminação mundial da Covid-19, as nossas experiências de perdas se intensificaram, sejam elas de pessoas, de relações ou de empregos. Esse volume de lutos, que nos atingem direta ou indiretamente nos colocam em situações de bastante vulnerabilidade”. Confira entrevista:

Portal Fortaleza Amiga do Idoso – Enfrentamos algumas fases durante o luto. Quais são elas e como sabemos que existe algo errado, fora do que seria “aceitável”?

Márcio Gondim – Tudo que apresenta um valor emocional para nós pode gerar perda: objetos, status, amigos, entes queridos ou propriedades. Perdas, lutos e mortes estão fora do nosso alcance de controle, não temos como escolher não passar por essas experiências nas nossas existências. É importante que possamos observar como lidamos com situações relacionadas a luto, perda e morte, pois o modo de cada pessoa lidar com situações difíceis é peculiar e, às vezes, imprevisível. Desse modo, é importante buscar apoio profissional quando a dor relacionada às perdas está insuportável, quando impede ou dificulta bastante o convívio com as outras pessoas ou de exercer atividade profissional, por exemplo.

Portal Fortaleza Amiga do Idoso – Como acolher a dor da outra pessoa? O que é aconselhável ou não na perspectiva de ajudar o outro com sua dor?

Márcio Gondim – A percepção dos significados de dores de cada um de nós pode ser bem diversa, então não é interessante a utilização de parâmetros rígidos ao lidar com a dor de outras pessoas; importante não julgar depreciativamente ou considerar que o que dói na outra pessoa é irrelevante ou algo menor. Nas relações cotidianas, perguntar como a pessoa está e reservar um tempo para ouvir o que o outro tem a expressar já pode ser bem acolhedor e relevante.

Portal Fortaleza Amiga do Idoso – Por que é tão importante fazer atendimento psicológico para superar uma perda?

Márcio Gondim – Serviços de Clínica psicoterápica podem ajudar bastante no enfrentamento das situações decorrentes da pandemia e nos desdobramentos delas, como por exemplo, o medo da morte, as inseguranças e frustrações decorrentes das perdas, a insegurança relacionada ao futuro, a ansiedade e o excesso de virtualidade. O acompanhamento psicológico vai ajudar a pessoa a lidar com as perdas, sejam elas de pessoas, de empregos ou de relações.

Portal Fortaleza Amiga do Idoso – Existe algum mecanismo ou dicas que ajudariam uma pessoa a superar ou mesmo minimizar a dor da perda?

Márcio Gondim – Serviços de clínica psicoterápica, que oferecem escuta qualificada, podem ser imprescindíveis em muitos casos. A escuta qualificada possui potencial terapêutico e acessa o campo humano subjetivo; para a pessoa em sofrimento, significa resolução de problemas, disponibilidade, confiança, compreensão, respeito. A escuta profissional qualificada melhora condição e expressão da pessoa em sofrimento.

Mary Marinho: “Se dói, busque ajuda. Faz parte do luto. “

É importante reconhecer para tentar superar!

Muitos enlutados não conseguem reorganizar-se após a perda. Não receberam apoio suficiente capaz de amenizar o sofrimento ou não se encontraram encorajados a solicitar algum tipo de auxílio.

Conversamos também com a graduanda em psicologia com diversas formações realizadas no Instituto Ciclo de Psicologia em perdas e lutos, Mary Marinho. Veja alguns pontos importantes e que devem ser considerados por aqueles que perderam alguém:

Pandemia:  A pandemia nos trouxe o medo e ansiedade. Estamos rodeados por pessoas que perderam familiares e amigos. Essa experiência tem sido, muitas vezes, devastadora: o medo se tornou presente. Vivemos um luto coletivo e antecipado;

Sinais de alerta: É importante perceber se, apesar da perda, a pessoa consegue realizar atividades habituais como: trabalhar, comer ou lazer. O primeiro ano é um luto constante. Datas comemorativas e lembranças tornam a vida, sem a pessoa, mais difícil. É importante que o enlutado perceba que a vida não será a mesma e busque ressignificar a dor. A terapia é ótima nesse sentido.

Para superar:  É importante fazer parte de um grupo social, discutir sobre a dor, ser acolhida em grupos de enlutados. Com o tempo, vai se fortalecendo. É importante também procurar literatura sobre o tema, uma atividade que antes não fazia: dança, andar de bicicleta. Fazer trabalho sociais, ser ouvinte. E mais importante: não se cobre em ficar bem. Importante é não mascarar nossos sentimentos. Devemos vivenciar o luto, aprender a lidar com aquela dor e com apoio psicológico e, em alguns casos, psiquiátrico, será possível superar. Se dói, busque ajuda. Faz parte do luto.

A nossa equipe separou algumas dicas para que o leitor se aproprie de tema tão relevante. Confira:

– Podcast Gama Revista:

Valéria Tinoco: “A dor do luto é o outro lado do amor”

No podcast, da Gama Revista, a psicóloga e cofundadora, professora e supervisora do 4 Estações, Valeria Ulbricht Tinoco fala sobre as particularidades do processo de luto em tempos pandêmicos, quando não é possível passar pelos rituais de despedida tradicionais. Dá caminhos para acolher o luto do outro e lembra que cada pessoa tem seu próprio tempo e ferramentas para encarar essa realidade.

Com informações da Gama Revista

Escute abaixo:

– Livro – Notas Sobre o Luto – Chimamanda Ngozi Adichie

Escrito por uma das maiores vozes da literatura contemporânea, esse livro é um relato não apenas sobre a morte de um pai amado, mas também sobre a memória e a esperança que permanecem com aqueles que ficam. Escrito após a morte do pai de Chimamanda Ngozi Adichie em junho de 2020, durante a pandemia de covid-19 que mantinha distante a família Adichie, Notas sobre o luto é um poderoso relato sobre a imensurável dor da perda e as lembranças e resiliência trazidas por ela. Consciente de ser uma entre milhões de pessoas sofrendo naquele momento, a autora se debruça não só sobre as dimensões familiares e culturais do luto, mas também sobre a solidão e a raiva inerentes a ele. Com uma linguagem precisa e detalhes devastadores em cada capítulo, Chimamanda junta a própria experiência com a morte de seu pai às lembranças da vida de um homem forte e honrado. Em poucas páginas, Notas sobre o luto é um livro imprescindível, que nos conecta com o mundo atual e investiga uma das experiências mais universais do ser humano.